XVII. Noite memorável

Com um céu tão límpido e transparente e com Marte tão brilhante (dia 18 deste mês fará a sua máxima aproximação à Terra até ao ano de 2016!) e já bem alto seria quase pecado não montar o telescópio no jardim na noite passada. E valeu bem a pena. Ontém foi só a minha melhor noite de observações até à corrente data! Por vários motivos! Para começar a montagem do telescópio parecia um relógio suiço. Depois de um alinhamento a três estrelas, sem demasiadas preocupações de rigor, a montagem colocava-me, salvo raríssimas excepções, os vários objectos observados no campo de visão da minha ocular de 6mm que, no meu telescópio corresponde a uma ampliação de 135x e a um campo real de 0.5º!! Espantoso… especialmente quando muitos dos objectos observados se situavam em locais opostos do firmamento. Até mesmo os planetas Marte e Saturno (este último observado por mim pela primeira vez) caíam certinhos no campo da dita ocular.
Este resultado é um óptimo presságio para o que a montagem conseguirá realizar no meu futuro observatório (já em construção) devidamente nivelada num pilar metálico de 6.5 polegadas cheio de betão e milimetricamente alinhada com o nosso polo celeste. Estou ansioso por experimentar.

Voltando à noite de ontem, é preciso referir que não foi só o equipamento que ajudou a torná-la inesquecivel. Rasgando o céu, no sentido este-oeste, por entre os esporádicos meteoros da chuva de “estrelas” (Geminídeas) bastante activa na noite passada, tive o previlégio de observar uma espetacular “bola de fogo” cruzando as constelações de Perseus e Cassiopeia. É uma visão magnífica, um privilégio que só os persistentes têm o prazer de disfrutar.
Não menos espetacular, e bem mais estático (pelo menos segundo o nosso referencial terrestre) é a jóia do sistema solar, o planeta Saturno, que tive a oportunidade de observar pela primeira vez através de um telescópio. A ocular de 6 mm (a 135x) é notoriamente insuficiente para observar este distante gigante dos céus com o meu telescópio. Não o recomendo para quem queira fazer observação planetária pois não se consegue grande ampliação (tenho mesmo de comprar uma barlow). No entanto, a imagem obtida é extremamente nítida e luminosa. A prova disso mesmo é que, apesar da baixa ampliação e do planeta ainda se encontrar bastante baixo, consegui vislumbrar a divisão Cassini.
Outra visão memorável foi a Grande Nebulosa de Orionte - M42. Apesar de já a ter fotografado e observado com os meus binóculos 15×70 nunca o tinha feito com o telescópio. A minha ocular preferida para este objecto é a Plossl de 26 mm (31x) , porque permite ter uma visão de conjunto e captura mais brilho que a da 6mm (135x) e 9mm (90x).
Quanto ao planeta Marte, apesar da sua proximidade, não me apresentou grande detalhe. Consegui vislumbrar pequenas manchas na sua superfície extremamente brillhante e, surpreendentemente, branco-amarelada, quase tipo Júpiter. Imaginei que fosse observa-lo mais avermelhado, talvez se tivesse devido à falta de ampliação.
Além dos objectos referidos tive ainda oportunidade de observar muito rapidamente testando a montagem e o autostar, as galáxias  M81 e M82, e os enxames abertos M41, M44, M34, Perseus Double Cluster, e ainda o cometa 17p/Holmes e a estrela Sirius. Obviamente todos eles merecerão mais atenção em uma outra noite.

Depois das duas da madrugada rendi-me ao frio intenso que se fazia sentir (certamente bem abaixo de 0º celcius) arrumei o telescópio e fui para casa tomar um banho quente.


About this entry